Tema: Desenvolvimento infantil

1485 - Adultização das crianças

Foto: Acervo da Pastoral da Criança

A fase da infância, especialmente a primeira infância, é um período importante para o desenvolvimento das capacidades do ser humano e é também o momento em que a personalidade vai ser desenvolvida. O excesso de exigências e de responsabilidades pode prejudicar o desenvolvimento da criança, pois acaba fazendo com que ela desenvolva precocemente habilidades que não são adequada para a idade e deixe de realizar atividades essenciais para o seu desenvolvimento pleno e integral. Para falar sobre o assunto, convidamos Bianca Bortolini do Amaral, Psicóloga Clínica, Especialista em Saúde Mental, Psicopatologia, que trabalha com crianças, adolescentes e adultos em Curitiba, Paraná:

Como se dá, na prática, essa adultização?

Tem pais que querem que a criança seja modelo, por exemplo, e trazem maquiagem, roupas inadequadas etc. Alguns pais querem que o filho seja mais maduro do que seria adequado para a idade e esquecem que ele ainda não tem a parte neurológica desenvolvida para isso. Outros exigem que ele seja o mais inteligente de todos. Adultizar uma criança é sobrecarregá-la de responsabilidades que ela não precisa ter naquele momento.

Viva a VidaPrograma de rádio Viva a Vida
1485 - Criança e responsabilidade: tudo tem seu tempo - 09/03/2020


Esta entrevista é parte do Programa de Rádio Viva a Vida da Pastoral da Criança.
Ouça o programa de 15 minutos na íntegra

  

Por que os pais permitem que aconteça essa adultização da infância?

Muitas vezes, por comodismo, pois manter a criança fora de casa é ter menos responsabilidade, por isso, muitas vezes, terceiriza-se a responsabilidade do processo de educar. A criança passa a ter alguém ensinando idioma, esporte, alimentando etc. Com isso, a família consegue manter a rotina que tinha antes da criança.

Que consequências a adultização precoce traz para o desenvolvimento da criança?

A criança, no brincar, desenvolve três instâncias: o real, simbólico e o imaginário. Brincando ela imagina, fantasia e cria subsistemas na cabeça que serão fundamentais para que ela seja um adulto saudável. Quando você tira dela esse brincar e já a insere em atividades direcionadas, faz com que ela tenha o olhar específico para uma atividade e não consiga enxergar mais nada. Isso traz sintomas depressivos, cria um adolescente ansioso, desenvolve um processo de stress, sobrecarga e cria um cenário de psicopatologias que muitas vezes nem surgiriam mas que a família, com essas atitudes, trouxe para o sistema interno da criança.

Bianca Bortolini do Amaral

Bianca Bortolini do AmaralPsicóloga Clínica, Especialista em Saúde Mental, Psicopatologia, que trabalha com crianças, adolescentes e adultos, em Curitiba, Paraná

Quais fases ou etapas a criança deve passar para crescer bem?

Para crescer ela deve se desenvolver bem e desenvolver bem é ter esse espaço para o real, o simbólico, que são as representações; e o imaginário, que é o que ela cria, fantasia. A partir do momento em que esse processo de imitar está funcional com o mundo em que vivemos, é sinal que a criança está se desenvolvendo. Brincar é desenvolver-se.

Como estabelecer uma linha do que é saudável?

Sabemos que existem muitos modelos de família com condutas extremamente diferentes e todo mundo acha que o seu é o certo, mas o correto é ter bom senso. Criança não usa salto, por exemplo, nem se veste com roupa de adulto, nem usa maquiagem, não pinta unha, não namora, não tem nem que ter essas brincadeiras, tem coisas que são pertinentes de uma idade em diante, antes disso não tem negociação. Só pode usar isso tudo se for em brincadeira de faz de conta, imitando os adultos, o que é saudável. Se surgir essa adultização, a primeira coisa é pensar de onde vem, se está vindo por parte de um adulto, com que interesse, se vem de outra criança e o por que. Os temas costumam ser sempre os mesmos e devemos nos perguntar pra que fazer isso, o que se ganha com isso, pois quem perde com a adultização é a criança.

Leia a entrevista na íntegra: 1485 - Criança e responsabilidade: tudo tem seu tempo (.PDF)