Clóvis Boufleur - Gestor de Relações Institucionais da Pastoral da Criança

Clóvis Boufleur - Gestor de Relações Institucionais da Pastoral da Criança

A mulher, quando está grávida, tem direitos que devem ser respeitados para que sua gravidez seja saudável e seu parto seguro. Confira a entrevista do gestor de relações institucionais da coordenação nacional da Pastoral da Criança, Clóvis Boufleur, sobre os direitos das gestantes, em especial, no momento do parto.

Quais são os principais direitos da gestante no SUS?

A gestante tem o direito de ter um pré-natal, um parto e um pós-parto de qualidade no serviço de saúde. Além disso, ela tem direitos trabalhistas, que é a garantia de emprego e a garantia à licença maternidade. Toda gestante deve receber no serviço de saúde a Caderneta da Gestante para anotar os exames, as consultas e todo o acompanhamento que ela faz.

Apesar de ser um direito da gestante, em alguns lugares há falta de vacina. Por que isso acontece? Quando falta vacina no posto de saúde, quem são os responsáveis?

Muitas vezes, falta vacina no posto de saúde porque houve problema no transporte, na validade, na maneira de ofertar esta vacina na unidade de saúde e, especialmente, em relação à refrigeração. Em alguns lugares, há falta de luz e as pessoas não conseguem se organizar de forma a proteger aquele medicamento. Mas também existem problemas na fábrica que levam a atrasos na entrega do produto e isso gera uma cadeia de problemas... As pessoas precisam saber que é um direito delas receber a vacina e é um dever da prefeitura se organizar para que ela não falte no seu município. Todos os órgãos públicos - governo federal, estadual e municipal - têm compromisso em relação à vacina. E cada um deles precisa cumprir sua parte para que ela esteja na unidade de saúde na hora que a gestante, a criança, enfim, qualquer pessoa precisar dela.

Em relação ao parto, fala-se que a gestante tem direito a um parto humanizado e de decidir que tipo de parto ela terá, exceto em caso de emergência. Então, por que acontecem tantas cesarianas no Brasil hoje em dia?

Criou-se no Brasil uma cultura de que a cesariana é um parto sem dor, mais rápido e agendado. Esta tradição, esta cultura, vai contra tudo o que no mundo se orienta em relação à proteção da criança e da futura mamãe, porque a cesariana é uma cirurgia. Ela deveria ser um procedimento com recomendação médica e não uma decisão da mãe, por achar que vai ter menos dor. Esta cultura, infelizmente, atinge praticamente 90% dos partos na rede privada - hospitais pagos pelas pessoas e pelos planos de saúde - e metade dos partos na rede pública. Isso gera um índice alto de mortalidade materna, e também problemas no desenvolvimento da criança por questões relacionadas ao parto antes do tempo.

O medo do parto natural também pode ser causado pela falta de conscientização das gestantes sobre isso?

De fato, nós estamos em uma geração que tem medo da dor, que tem medo de enfrentar o parto que trouxe à vida toda a humanidade ao longo dos séculos. É uma cultura que foi criada nos últimos 30, 40 anos, por causa da facilidade de fazer uma cirurgia, da anestesia... Isso precisa ser rediscutido com as mulheres, para elas entenderem o grande benefício que é o parto natural.

Como nós podemos mudar essa situação de medo do parto natural?

Precisamos enfrentar isso de duas maneiras: uma é em relação aos profissionais de saúde, que precisam ser remunerados, conscientizados para acompanhar um parto natural com o tempo que é preciso. E outra, é em relação as mulheres. Este movimento de que existe um benefício em relação à cesária, quando, na verdade, não é o que mostram as evidências na área de saúde.

O que está se fazendo hoje no Brasil, em termos de políticas públicas para priorizar este tipo de parto?

O Brasil fez um movimento, uma campanha muito forte para priorizar o parto natural. Inclusive, o SUS remunera de forma diferenciada o procedimento, justamente para incentivar os partos naturais na rede pública.

 

“Desde sempre, na minha cabeça, tinha que ser parto natural. Em nenhum momento eu pensei em outra possibilidade”

Depoimento - Carolina Soto

Boa alimentação, exercícios adequados, descansar e aguardar a chegada do bebê. São nove meses de espera, expectativas e indicações do que fazer para que a criança seja acolhido da melhor maneira possível.

Mas, e o parto? Dói muito? Quanto tempo dura? E o atendimento, como é feito?

Mesmo com todas as orientações, conhecer as experiências de outras mulheres sobre o momento do parto pode tranquilizar e tirar muitas das dúvidas das futuras mães. Por este motivo, trazemos hoje o depoimento de Carolina Soto, que trabalha na Coordenação Nacional da Pastoral da Criança, para contar um pouco da sua experiência sobre seus partos. Acompanhe:

"Meu nome é Carolina Soto, tenho duas filhas e ambas foram por partos naturais. A primeira eu tive atendimento pelo SUS [Sistema Único de Saúde] e fui bem acolhida. O processo foi bem simples e rápido: tive o rompimento da bolsa e fui encaminhada de ambulância até o hospital e todo o atendimento foi tranquilo, bem acolhedor".

EXPERIÊNCIA – "Quando eu entrei no quarto, fiquei um pouco assustada porque tinha bastante mães em trabalho de parto. Mas logo eu sai porque meu processo de trabalho de parto foi bem rápido: eu cheguei no hospital por volta das três horas da tarde, e às sete horas da noite minha filha já nasceu. Tive a orientação do médico o tempo todo, de como eu tinha que agir".

ATENDIMENTO – "Nessa ultima gestação entrei em trabalho de parto às quatro horas da manhã, eu liguei para minha médica e avisei que eu estava indo pro hospital. Logo em seguida ela chegou. Eu já tinha sido bem atendida no hospital, tinham me acolhido e feito todo o preparo. Eu tive o atendimento igual como foi na primeira pelo SUS, em nenhum momento me senti abandonada por eles".

DOR – "Não vou dizer que não foi dolorido. Mas é uma dor suportável, e depois que nasce o bebê passa toda a dor; acaba, não tem nenhum resquício de dor do momento do parto".

RECUPERAÇÃO - "Minha recuperação foi ótima, 48 horas depois eu já tive a alta – foi mais pelo acompanhamento da neném. Ela ficou comigo no mesmo quarto na mesma noite, dei de mamar logo em seguida e pude atender ela na hora que ela quis, que ela me pediu. Também troquei a fralda dela, e já levantei. Na mesma noite tomei banho sozinha e pude me movimentar sem precisar de apoio nenhum".

EXPECTATIVA – "O bebê tava previsto, pela ecografia, para o dia 11 de novembro, mas ela nasceu 30 de outubro. Para mim ela nasceu no tempo certo, inclusive pelo rompimento da bolsa".

PARTO NATURAL – "Desde sempre, na minha cabeça, tinha que ser parto natural. Minha mãe teve cinco filhos, todos de parto natural. Então, em nenhum momento eu pensei em outra possibilidade. Na segunda filha – que foi depois de quase 13 anos – o atendimento foi [em hospital] particular. A doutora me colocou as duas possibilidades, mas eu optei, desde o começo, pelo parto natural e ela apoiou minha escolha".

IMPORTÂNCIA DO PARTO NORMAL – "Eu sempre falo pras minhas amigas que desejam ser mães, que estão grávidas ou pretendem engravidar, que o parto natural é o ideal. Nos preocupamos tanto, durante os nove meses, em cuidar do bebê, e no momento mais importante também temos que pensar neles. No parto natural, a própria criança já se prepara pra nascer, o nosso organismo se prepara para isso. A cesária desnecessária é uma agressão para criança e pro nosso corpo. Depois que a criança nasce, precisamos dar tanta atenção pra ela, cuidar dela e com a cesária vamos ter que ficar pensando no ponto, na cesária, pedir para que alguém venha pegar um copo de água, nos atenda, troque a fralda da criança... porque nas primeiras horas não se pode fazer isso. A cesária limita o nosso atendimento para o recém-nascido. O natural nos liberta pra gente estar 100% para atender a criança".

 

Esta entrevista é parte do Programa de Rádio Viva a Vida da Pastoral da Criança.
Ouça o programa de 15 minutos na íntegra

Programa de Rádio 1207 - 17/11/2014 - O momento do parto

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