Como os cuidados nos primeiros 1000 dias de vida podem ajudar na saúde para sempre

Uma das mais relevantes e atuais pesquisas sobre o impacto do baixo peso ao nascer foi desenvolvida pelo médico e pesquisador inglês Dr. David Barker. A pesquisa demonstra que pessoas que nasceram com baixo peso, tinham maior risco de desenvolver doenças do coração, colesterol, diabetes, obesidade, hipertensão arterial, problemas no funcionamento dos rins, osteoporose entre outros problemas. Além do Dr. Barker, outros pesquisadores também afirmam que os primeiros 1000 dias de vida podem afetar nossa saúde durante toda vida. Mas, por que 1000 dias?

Podemos observar que nos últimos 20 anos – ao mesmo tempo em que a mortalidade infantil vem diminuindo consideravelmente – há mais bebês nascendo com baixo peso (menos de 2,5 kg) e também mais bebês nascendo antes do tempo (prematuros).

Infelizmente, existe uma grande probabilidade de que esses bebês pequenos venham a enfrentar problemas de saúde no futuro.

Com os exames médicos realizados no pré-natal é possível identificar e reduzir muitos problemas de saúde que costumam atingir a mãe e seu bebê. Um desses problemas é a desnutrição intrauterina, ou seja, dentro do útero. Dr. Nelson Arns Neumann, coordenador nacional adjunto e coordenador internacional da Pastoral da Criança, fala sobre o assunto:

Thereza Kaiser Batista - Assistente técnica da coordenação nacional da Pastoral da Criança.

Dr. Nelson Arns Neumann, coordenador nacional adjunto e coordenador internacional da Pastoral da Criança

A Pastoral da Criança está alertando as gestantes e famílias sobre como os primeiros 1000 dias da criança podem afetar a saúde para sempre. Qual é o motivo deste trabalho?

Certas doenças já têm origem na gestação, então estes cuidados durante a gravidez são cada vez mais importantes, porque podem prevenir pressão alta, osteoporose, colesterol alto, problemas de rim, a criança nascer com menos músculos, obesidade e diabetes. Tudo isso inicia na gestação. A dieta da criança nos primeiros dois anos é muito importante, o aleitamento materno, por exemplo, é capaz de prevenir uma série de doenças.

E o que está sendo feito nas comunidades neste sentido?

A Pastoral da Criança, sabendo da importância desses primeiros 1000 dias, faz o Mutirão em Busca das Gestantes. A cada três meses os líderes vão de casa em casa entregar uma cartelinha dizendo da importância desses 1000 dias - período que vai do dia em que a mulher fica gravida até o segundo ano de vida da criança. Se tem uma gestante em casa, ela fica ciente e toma uma atitude, e se não tem gestante ainda, ela já pode pensar em como pode ter uma gravidez saudável e quais os cuidados que precisa ter desde o início, para que seu filho tenha saúde não apenas dentro da barriga, durante o parto e nos primeiros anos de vida, mas também aos 60, 70, 80, 90 ou até mais de 100 anos de vida.

Para uma gestação saudável, o que é preciso?

É preciso preparo. É preciso também tomar o acido fólico, de preferência, antes de engravidar para prevenir doenças do sistema nervoso. Não deixar a gestação para muito tarde e, em qualquer fase da vida, ter uma alimentação saudável.

O que é a desnutrição dentro do útero?

Muitas vezes a criança não recebe todos os nutrientes que precisa dentro da barriga da mãe, e isso pode acontecer por muitas causas. A mais comum no passado, era quando a mãe passava fome e a criança passava fome junto. Hoje praticamente não existe mais no Brasil essa falta de acesso a comida, mas ainda existem algumas causas que podem levar a criança a sofrer dentro do útero.

O que a gestante deve fazer para evitar a desnutrição dentro do útero?

Em primeiro lugar, ela deve comer bem, frutas e verduras são muito importantes. Em segundo lugar, ela precisa controlar certas doenças. A pressão alta, por exemplo, prejudica a criança, inclusive a sua nutrição, porque a pressão da mãe influencia sobre a quantidade de sangue que essa criança recebe dentro da barriga. Outra questão é o uso de drogas, o fumo causa desnutrição da criança dentro da barriga da mãe. A gestação quando é tardia, também causa problemas, porque o organismo da mãe não está em pleno vigor pra sustentar a criança.

A desnutrição do bebê dentro do útero pode predispor a criança à obesidade?

Sim. Quando a criança passa fome dentro da barriga da mãe, ela modifica o jeito do seu organismo funcionar. É quase como se a criança entendesse que a vida fora da barriga está ruim, então ela tenta treinar o organismo para poupar. Como o organismo foi treinado para poupar tudo, ou boa parte do que come, o que a criança ingere é reservado em forma de gordura. Por isso, esse organismo poupador tem uma tendência muito maior a engordar.

Além de uma boa alimentação é necessário também a suplementação de ferro e ácido fólico?

O ácido fólico é muito importante para completar o sistema nervoso da criança. É importante que a mãe já tenha essa suplementação antes da gravidez, porque a formação da coluna espinhal acontece já no primeiro mês de gestação. Também é importante a questão do ferro: através da alimentação ele é melhor absorvido. E para absorver melhor o ferro é bom ingerir junto a vitamina C. Em geral é recomendado também que ela tenha um suplemento de ferro pra que não falte esse elemento essencial para fazer as células do sangue, tão importantes para a mãe e para a criança.

Quais seriam as causas principais da prematuridade?

A maior causa evitável da criança nascer antes é a infecção urinária. Uma pesquisa muito recente apontou também que as gestantes idosas, além da criança sofrer uma desnutrição dentro do útero, elas também tem partos mais prematuros. Essa pesquisa indica também que a gestante começa a ficar “idosa” a partir dos 27, 28 anos de idade. Quanto mais tarde, maior o risco da criança nascer antes do tempo e maior o risco do retardo de crescimento intrauterino.

E aquelas gestantes que optam pela cesariana com hora marcada, qual é a consequência disso?

A antecipação do parto pode ser muito perigosa. A criança que nasce duas semanas antes do tempo, tem mais de 100 vezes a chance de ter problemas respiratórios. A mortalidade da mãe e das crianças, as consequências, as doenças que a mãe sofre depois, também são muito maiores nas mães que fazem cesárea.

Esta entrevista é parte integrante do Programa de rádio Viva a Vida. Escute o programa na íntegra aqui:

1069 - 26/03/2012 - Primeiros mil dias de vida - Entrevista com Dr. Nelson Arns Neumann

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Quais são as principais causas de sofrimento do bebê na barriga da mãe?

Fome materna

Há muito tempo se sabe que as mães que passam fome podem ter bebês com baixo peso. Mas, ainda falta comida no Brasil? Há mães que passam fome? Embora o Brasil produza muito mais comida do que os brasileiros precisam, algumas famílias ainda não têm o suficiente para comer. No entanto, cada vez há mais pessoas que passam fome para emagrecer ou por terem medo de engordar. E, se esta fome acontece durante a gestação, o bebê sofre na barriga da mãe.
A solidariedade é o principal meio para enfrentar a fome materna. Gestantes devem ser a prioridade de qualquer comunidade. Sabendo de todas as consequências da fome para o futuro do bebê, temos a convicção de que nos casos da gestante que não tem comida, seus vizinhos ajudarão para que não falte comida para ela durante a gestação. Consciência: a autoimagem da mulher não deve ser superior às necessidades do bebê. As gestantes que souberem das graves consequências de suas ações sobre seu bebê com certeza optarão pela saúde do bebê.

Anemia

Cansaço, falta de vontade de fazer as coisas e pouco apetite, podem ser sintomas de anemia.
Como evitar: Melhorar a absorção do ferro na alimentação de costume. Devemos orientar a gestante para que evite ingerir alimentos ricos em ferro junto com café, chá ou produtos derivados do leite, já que eles dificultam a absorção do ferro pelo organismo. A melhor maneira de se alimentar é ingerir alimentos ricos em ferro junto com vitamina C, encontrada no suco de laranja, limão, acerola, entre outros. Realizar as consultas de pré-natal: os exames de sangue apontam a existência da anemia e o médico tem condições de avaliar o melhor tratamento.

Pressão alta

Dor de cabeça, inchaço nos pés, mãos e rosto, pode ser pressão alta. Existe também a pressão alta que não se percebe, daí a necessidade de medir a pressão mesmo que não sinta nada.
Como evitar: Melhorar a alimentação: é preciso orientar a gestante para que diminua o consumo de sal, para ajudar a prevenir a pressão alta. Realizar as consultas de pré-natal: medir a pressão nas consultas e, se for o caso, usar remédios. Somente o médico tem condições de avaliar o melhor tratamento.

Diabetes

Acontece quando a quantidade de açúcar no sangue aumenta.
Como evitar: Melhorar a alimentação: diminuir o consumo de açúcares, de massas e pães. Atividades físicas/exercícios são importantes para ajudar na prevenção do diabetes gestacional. Realizar as consultas de pré-natal: fazer exame de sangue e, se for o caso, usar remédios. Somente o médico tem condições de avaliar o melhor tratamento.

Infecção urinária

A infecção urinária, assim como qualquer infecção, faz com que o organismo da gestante gaste energia para combatê-la. Estudos demonstram que bebês de gestantes tratadas para infecção urinária têm melhor peso ao nascer.
IMPORTANTE! A infecção urinária faz com que o bebê nasça antes do tempo, ou seja, seja um bebê prematuro. Por isso, é muito importante que a gestante seja tratada logo. Caso o tratamento demore, o mecanismo que leva ao parto prematuro já se inicia e não para mesmo que o tratamento para infecção urinária aconteça depois. Como evitar:
Se a gestante sentir dor na barriga ou ardência ao urinar, pode ser sinal de infeção urinária. Neste caso, ela deve ir ao serviço de saúde, mesmo que não seja o dia da sua consulta, para conversar com o médico e realizar os exames. Realizar as consultas de pré-natal: fazer exame de urina e, se for o caso, usar remédios. Somente o médico tem condições de avaliar o melhor tratamento.

Fumo e drogas durante a gestação

As drogas, além de prejudicarem o desenvolvimento do bebê, podem causar anomalias congênitas nos rins, nos olhos e no cérebro, entre outras. O cigarro: pode provocar partos prematuros e o nascimento de bebês com baixo peso, problemas respiratórios e no coração. Alguns medicamentos: podem prejudicar a formação do corpo do bebê. Lembre: medicamentos somente com prescrição médica.
Como evitar: Orientar a família sobre as consequências destas substâncias. E o não consumo destas substâncias, principalmente durante a gravidez e amamentação.

Ter filhos depois dos 28 anos de idade

Pesquisas apontam que nas gestantes após os 28 anos, além da criança sofrer mais dentro do útero com desnutrição (Retardo de Crescimento Intra-Uterino), também há uma chance maior do bebê nascer antes da hora.
Como evitar: Mulheres/casais que atrasam sua primeira gestação deveriam ser bem orientados sobre as potenciais consequências disso.

Programar cesariana sem necessidade

Cesarianas agendadas com uma semana de antecedência ou mais, sinalizam um erro ou até incompetência médica. O Ministério da Saúde tem dados que comprovam que as crianças que nascem duas semanas antes do tempo, têm 120 vezes mais chances de ter problemas respiratórios. As cesarianas também aumentam consideravelmente os riscos de complicações após o parto. Como evitar: Conversar com seu médico sobre a importância do bebê nascer no tempo certo.

Como a Pastoral da Criança está atuando na gestação e do nascimento aos 2 anos de idade

A Pastoral da Criança está disposta a somar esforços para prevenir o baixo peso ao nascer.

Na gestação

Através do Mutirão em Busca das Gestantes, onde se faz a entrega da cartela dos 1.000 dias e busca-se encontrar gestantes logo nos primeiros meses de gestação.

Nas Visitas domiciliares que acontecem todos os meses orientando para que a gestante faça o pré natal, e entregando nessas visitas as cartelas dos Laços de Amor. Orientando também sobre a vacina antitetânica, altura uterina para acompanhar o crescimento do bebê. Explicando sobre aleitamento materno e como preparar os seios para amamentação e orientando sobre alimentação saudável. Verificando se as recomendações médicas estão sendo seguidas, e sempre dando atenção maior para as gestantes que apresentam algum problema de saúde.

Do nascimento aos 2 anos de idade

O nascimento de uma criança é a celebração da vida e da esperança. Um milagre de Deus se realizou.

O aleitamento materno: todas as crianças devem ser amamentadas exclusivamente com leite materno até o sexto mês. E após o sexto mês iniciar com outros alimentos e continuar amamentado até os dois anos ou mais.

Orientações sobre vacinas, os sinais de perigo no 1° ano de vida entre outras.

A Pastoral da Criança vem desenvolvendo a vigilância nutricional voltada para crianças do nascimento aos seis anos, acompanhando a evolução do seu IMC (Índice de Massa Corporal). Com este método do IMC, conseguimos: oportunizar a orientação precoce das mães ou responsáveis quanto ao estado nutricional da criança; capacitar equipes de ramo quanto à obtenção do IMC e também em relação a nova metodologia utilizada no Dia da Celebração da Vida. Priorizar no da vigilância nutricional as orientações para as mães e outros familiares sobre isso.

Nossas histórias

Especial Mil Dias - Pernambuco

No dia 4 de julho de 2012, os coordenadores e líderes da Pastoral da Criança da Paróquia São Félix deCantalice, Buique (PE), aproveitaram a  Reuniãode Reflexão e Avaliação mensal para tratar sobre os "mil primeiros dias".A reunião contou com a participação da médica Stéphannie Marjore, que aproveitou o encontro paraexplicar ao presentes "como os primeiros 1000 dias  podem afetar nossa saúde para sempre".Colaboração: Dalmo Leite

 Foto: Setor Bahia - 3º região

 



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