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 Vital Didonet

Sobre a paternidade, o educador Vital Didonet, integrante da Rede Nacional da Primeira Infância (RNPI), reforça a alegria e a responsabilidade na formação de um novo ser humano, assim como a importância da presença do pai desde o pré-natal, o que foi ainda mais incentivado com a aprovação do Marco Legal da Primeira Infância. Confira a entrevista completa:

Como foi a experiência de se tornar pai e como é ser pai?

A gente, às vezes, pensa assim, quando a criança é pequena, que quem é responsável é a mãe, ela que vai cuidar, ela que vai ter todo o zelo, que vai amamentar, vai dar banho, trocar fralda. Mas a criança é filha do pai e da mãe. A natureza fez assim. E precisa ter a contribuição masculina e a feminina para constituir um novo ser humano. Então, essa experiência de ser pai é uma coisa muito importante para homem, porque ele completa sua vida, ele tem uma participação na continuidade da espécie humana, da humanidade, na geração de um novo ser humano, de outra pessoa. E eu tenho visto, tanto comigo quanto com amigos, quando tem a notícia que a mulher está grávida, que a esposa vai ter um filhinho, isso transforma a vida da gente. A gente fica muito entusiasmado, porque, diz assim: “que mistério maravilhoso a natureza tem, que nos faz poderosos a ponto de gerar um novo ser humano”. E o amor, o carinho, o afeto que a gente passa a ter com a esposa, que já tem antes, mas ganha uma nova dimensão, a dimensão agora de terem os dois juntos gerando uma nova vida. E à medida em que os dias vão passando, da gestação, a gente vai vendo as transformações no corpo da mulher, vendo o crescimento de um ser dentro de um ser humano. E a gente acompanha isso com muita imaginação, com muita fantasia gostosa, com muita alegria e também rezando, porque a gente sabe que Deus é que está conduzindo esse mistério e que nos faz apenas auxiliares Dele na criação.

Qual é a importância da participação direta do pai no cuidado com os filhos e que impacto isso traz na família?

Eu vejo três coisas importantes da participação do pai. A primeira, que ele tem a obrigação de dividir com a mulher a responsabilidade e o trabalho que dá esse cuidado com o bebê, desde a gestação, mas depois com o parto, o nascimento, os primeiros anos de vida, tem que repartir com a mulher. A mulher tem que sentir que seu companheiro, que o seu marido, que a pessoa que vive com ela assume, junto com ela, essa tarefa que é pesada, que não é simples, que complica, que exige muito, cobra bastante, quase dia e noite. Então, a mulher, inclusive, se aproxima mais, se torna mais agradecida, mais afetuosa com o marido que reparte com ela esse ponto.

A segunda coisa é importante para o bebê. A criança tem que sentir a presença do pai, não só da mãe. Porque a figura masculina vai se introjetando na mente da criança, no coraçãozinho da criança desde o início. Então, se o pai é um pai atencioso, carinhoso, presente, o bebê vai formar uma noção já desde o comecinho da vida do significado do papel do homem. Se ele tem um pai omisso, que não comparece, que não ajuda, que não reparte, vai formar uma noção de que o homem é esse ausente. E com isso vai ser mais difícil dele também ser um bom pai no futuro.

E a terceira importância que eu vejo, da participação do pai nos meses iniciais da vida, é que é bom para ele, para o próprio homem. Sentir que tem uma vida frágil, pequenininha, mas na mão dele, na mão da mulher dele, da família dele, mas que ele ajuda a cuidar. Ele tem a experiência de ser importante para a formação dessa criança. Então, o próprio homem se beneficia muito, na medida em que ele participa dos cuidados.

O senhor acredita que há diferença entre as responsabilidades do pai e da mãe na criação dos filhos?

Há uma diferença, sim, claro. A mãe tem uma ligação biológica muito mais profunda, porque o bebê foi formado dentro do corpo dela durante nove meses. E a amamentação, que é feita pela mulher, também é um vínculo mais próprio, específico da mulher. O papel do pai é também de repartir o cuidado, mas é diferente. Então, são complementares. Os dois juntos é que se fortalecem. Tendo o marido, o companheiro junto, essa forma de cuidar do bebê fica mais completa, mais profunda. Eu acho que é importante que a gente entenda como corresponsabilidade, ou seja, os dois são responsáveis juntos. Embora cada um tenha um papel diferente a desempenhar no cuidado com a criança.

Quais são os benefícios da presença do pai durante o pré-natal, no parto e pós-parto?

A importância do acompanhamento do homem durante a gestação, no pré-natal, está nele estar junto da mulher nesse período da formação do ser humano. É muito diferente ele só se apresentar depois. Aí já passou um período importantíssimo da formação do ser humano que ele não teria acompanhado. Então, se ele pode ir junto com a mulher em pelos menos umas duas ou mais consultas pré-natais, o obstetra vai orientar, explicar qualquer dúvida, qualquer problema que possa estar ocorrendo. Ele vai ouvir orientações que o médico vai dar para a mulher e ele vai, também, então acompanhar mais intensamente esse período. Por exemplo, se ele vê a hora em que estão fazendo aquele exame que vê o feto se mexe no ventre da mãe, ele sente uma emoção fantástica. A gente vê que muitos homens choram de emoção nesse momento. E isso marca muito a vida dele como pai. Depois, acompanhar o parto é uma experiência extraordinária, de ver o bebê nascer, de ver o carinho que há logo em seguida, logo que ele vem para o peito da mãe e vai ser amamentado. Ele pode pegar o bebê no colo logo no começo, é uma experiência intransferível, só ele mesmo nesse momento que pode ter essa experiência. E é uma pena que muitos não têm essa oportunidade ou não queiram, porque eles perdem uma riqueza enorme. E depois, após o nascimento, vem o pós-parto, as consultas pediátricas... O Marco Legal da Primeira Infância deu muita força para este aspecto do acompanhamento à gestante por parte do pai da criança, para que ele possa participar mais intensamente e também aprender como cuidar melhor do bebê.

Quais seriam suas orientações para o pai construir um vínculo amoroso com seus filhos, sem deixar de indicar-lhes limites?

Nós estamos enfrentando hoje, vendo na televisão, lendo e conhecendo perto de nós, tanta violência que existe, tanto contra a criança, como até crianças e adolescentes sendo violentos e os adultos sendo violentos também entre si. Para Jesus, uma das mensagens mais fortes era da paz. Logo que ressuscitou Ele disse: “A paz esteja convosco. Estejam em paz. Não tenham medo”. E Jesus está trazendo a paz para nós. Então, é preciso a gente superar no mundo de hoje, essa cultura da violência, da intolerância. E uma das coisas mais importantes é a importância do vínculo, o vínculo afetivo da criança com sua mãe, com seu pai, com sua família. Esse vínculo, que é uma ligação amorosa entre a criança e seus pais e sua família, dá estabilidade à personalidade, deixa a pessoa mais segura, mais confiante, mais dona de si. Ela sabe que não está pisando numa areia movediça, está pisando numa terra segura, em um chão estável, que é o afeto, que é o amor. Então, é muito importante que desde o comecinho da vida se estabeleça o vínculo afetivo, essa ligação amorosa, atenciosa, carinhosa da mãe e do pai com o bebê com a criança, para que ela cresça com essa segurança. Então, o que a gente orienta em relação a isso nas conversas com os pais? Primeiro, vamos ser muito pacientes, muito carinhosos, vamos expressar afeto e carinho, vamos dizer para o filho que a gente gosta dele, que admira uma coisa que ele faz, que a gente tem saudade quando ele não está perto, que ele é importante. Vamos conversar sempre com ele com essa linguagem de quem compreende que a criança ela é muito legal, muito bacana. Agora, claro, a criança está experimentando o mundo. Ela não sabe onde faz mal, ela não sabe que o fogo queima e que a faca corta, que a tesoura pode machucar. Então, os pais têm obrigação, porque são mais experientes, de dizer: “Olha meu filho, com fogo não se brinca. Sempre que mexer com fogo, tem que ter um adulto perto. Podemos fazer uma experiência de fogo, mas eu quero estar junto. Porque pode ser que a pessoa se queime. Olha, não brinque com essa faca afiada, porque ela pode cortar sua mãozinha e depois vai doer muito”. Então, a gente vai mostrando que as coisas têm limites. A faca é usada para isso e não para aquilo. Assim também os limites em relação à linguagem. O que a gente gosta que as crianças falem. Mas também linguagem que não pode ser socialmente rejeitada, uma linguagem agressiva, ofensiva. Os pais têm que mostrar para os filhos até onde eles estão com segurança. E a partir de onde eles passam estar numa zona perigosa, numa zona de insegurança. A criança precisa dessa orientação. A gente pensa que educar com amor é deixar totalmente livre, é fazer o que quer, quando quer, do modo que quer. Isso não é amor. Isso é omissão. Isso é irresponsabilidade. Os limites que a gente estabelece são necessários para a criança saber onde ela pode andar. É claro que a gente não tira a liberdade da criança, mas a liberdade dentro da responsabilidade.

Há uma mudança do pai em relação ao bebê, em relação à criança pequena, com o filho adolescente, com o filho adulto e depois com os netos?

Há sim. Tem uma coisa que permanece, que é a base, é o amor. O amor e a responsabilidade. Isto não muda. A gente ama o bebê quando está se formando no seio da mulher, quando nasce, quando é pequenininho, quando está aprendendo a falar, aprendendo a caminhar. Se encanta com ele quando começa na pré-escola, no jardim da infância, pré-escola, quando é um adolescente e desperta para tanta aventura do mundo e tantas dúvidas e tantas contradições que vai enfrentando, etc. Então, à medida que a vida vai mudando, a gente também vai mudando a forma de se relacionar com ele, mas com base sempre no fundamental que é: “Eu te amo e eu sou corresponsável contigo, estou ao teu lado. Onde estiveres, eu estarei procurando ser teu companheiro, teu amigo, teu pai, tua segurança”. Então, isso não muda. Agora, a forma muda sim, porque a gente não pode tratar um adolescente como se fosse uma criança de quatro anos, ele não vai gostar. Com o adolescente você ouve, dialoga. Criança pequena você também ouve, também pode argumentar, você também dialoga muito, mas você tem mais responsabilidade de dizer “assim está mais certo do que desse jeito”. Quando os filhos já são adultos, pais, então a gente é mais companheiro deles, troca ideia, aceita muita orientação dos filhos adultos. E depois com os netos, parece que retorna um pouco aquele período do bebê que a gente teve. Então, a experiência de ser avô é uma coisa muito diferente de ser pai, porque você tem aquela vida pequena despertando para o mundo, cheio de curiosidade, de carinho, de ternura, mas olhando para a gente como avô, como alguém que está ali para brincar com ele, para contar historinhas, para proteger, para ajudar. Já com o pai, a criança se relaciona diferente. Ela exige mais dos pais do que do avô. Então, o avô não se sente exigido, não se sente cobrado. Ele se sente agradecido por dar essa atenção ao bebê. Então, é normal que a gente modifique a nossa forma de relacionamento, porque as pessoas com quem a gente está vivendo também são diferentes, estão se modificando. Em cada circunstância da vida tem um jeito da gente se relacionar.

Gostaríamos que o senhor deixasse uma mensagem para todos os pais.

Ser pai é uma bênção de Deus. É uma maravilha, uma experiência extraordinária que a gente tem que desfrutar. Vamos pensar, no Dia dos Pais, o que significa essa possibilidade de nós trazermos à existência humana uma pessoa. A partir do momento em que ela foi concebida, ela vive para sempre. E essa responsabilidade, esse prazer, essa grandeza, esse mistério de gerar uma vida, também é uma responsabilidade, porque essa vida nasceu para ser feliz, nasceu para estar no coração da humanidade como uma pessoa realizada. E nós temos que fazer tudo para que isso aconteça. Por isso, nós trabalhamos, nós rezamos pelos nossos filhos, nos dedicamos a eles, não para cobrar depois. Então, o Dia dos Pais é uma oportunidade muito fértil, muito rica que nós temos para agradecer a Deus a bênção, a graça de gerarmos seres humanos para a eternidade. Mas também devemos rezar muito para que nós possamos cumprir a nossa missão com fidelidade, porque Deus é pai.

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