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Em muitas famílias, falar sobre luto ainda é um tabu. Muitos acreditam que as crianças não entendem a morte, logo, não passam pelo processo de luto quando ocorre uma perda na família ou de alguém próximo.

A verdade é que o luto em crianças existe, porém é diferente do luto dos adultos. Até os nove anos de idade, as crianças não entendem por completo o conceito de morte. Elas entendem apenas a ausência e a saudade, mas não compreendem de fato o falecimento.

Muitos pais não sabem como lidar com as crianças quando ocorre a perda de um ente querido. Nessas horas, surgem dúvidas como: levar ou não ao velório e como comunicar à criança sobre o que ocorreu.

Na entrevista a seguir, com o professor de psicologia Cloves Amorim, veremos orientações sobre como lidar da melhor maneira possível com o luto das crianças, evitar possíveis traumas e medos que podem ser carregados para a vida toda.

Neste conteúdo você encontrará:

  • O luto das crianças é diferente do luto dos adultos?

  • Como devemos falar sobre luto e morte  com as crianças?

  • Quais as consequências de comparar a morte com o sono, viagem e estrelinha, para a criança?

  • Como os adultos podem ajudar uma criança a expressar a tristeza e a saudade depois de uma perda?

  • É importante deixar a criança participar do velório?

  • Como diferenciar o luto da morte do luto da ausência? 

  • Como diferenciar uma tristeza que faz parte do luto de uma situação em que a pessoa precisa procurar ajuda profissional?

  • A espiritualidade ou a fé podem ajudar uma pessoa a enfrentar o luto?

  • Como devemos falar sobre o luto com as crianças?
Cloves Amorim

Entrevista com Cloves Amorim, psicólogo e professor titular do curso de Psicologia da PUCPR, Diretor do Itaca - Instituto de Tanatologia, em Curitiba, Paraná. O professor Cloves é referência em estudos sobre luto, suicídio e cuidados paliativos. 

Professor Cloves, o que é o luto?

DR. CLOVES:

O luto tem o direito e o avesso. O lado interno do luto é o pesar. É um complexo de pensamentos, sentimentos sobre uma perda. Eles são vivenciados internamente. Já o luto é o pesar tornado público. É quando você se apropria desses sentimentos e pensamentos e os expressa e compartilha com os outros. 

Viva a Vida Programa de rádio Viva a Vida – 1831 - 26/10/2026 - Luto infantil, como lidar

 

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Esta entrevista é parte do Programa de Rádio Viva a Vida da Pastoral da Criança.
Ouça o programa de 15 minutos na íntegra

O luto das crianças é diferente do luto dos adultos?

DR. CLOVES:

Sim, por uma única razão. O conceito de morte não está pronto nas crianças. Isso só vai acontecer ao redor dos nove anos de idade. A criança pode não saber o que é o luto, mas ela sabe o que é ausência, ela sabe o que é a falta.

Em geral, nós evitamos falar do tema luto e morte com as crianças. Como devemos falar sobre esse tema com as crianças? 

DR. CLOVES:

De uma maneira honesta, observando a idade da criança e fazendo comentários mais concretos. Por exemplo, dizer: o dia morre, plantas morrem, animais morrem e pessoas morrem. 

E a gente pode dizer para a criança que o titio, que a vovó, que o primo, que o colega da escola teve um acidente e não sobreviveu, ou seja, esta pessoa morreu. Então, quando você fala abertamente com a criança, você deve usar a palavra morte e a palavra morrer.

Muitos adultos não conseguem explicar as perdas para as crianças. Aí tentam contar histórias como: “Vovó virou uma estrelinha”; “Ela caiu em sono profundo”; “O vovô viajou para longe”; “Seu cachorrinho precisou ir embora”. Professor Cloves, que consequências essas tentativas de comparar a morte com o sono, viagem, estrelinha, trazem para a criança?

DR. CLOVES:

No momento em que se diz essas narrativas e essas expressões para a criança, ela se acalma e se sente respondida. 

Mas a médio ou longo prazo, a criança poderá apresentar insônia, medo de viajar, e, em geral, isso acontece até um ano depois em que foi dito esse tipo de explicação.

Então, algumas crianças poderão desenvolver angústia, solidão e medo, porque elas pensam que viajar é uma coisa ruim, que dormir pode ser perigoso. A gente deve evitar esse tipo de metáfora com as crianças.

Como os adultos podem ajudar uma criança a expressar a tristeza e a saudade depois de uma perda?

DR. CLOVES:

Existem muitas formas de fazer isto. A primeira a fazer sugestões foi a professora Vilma Torres, do Rio de Janeiro. Ela escreveu um livro que se chama “A Criança Diante da Morte”.

Ela faz quatro sugestões para ajudar a criança no processo de luto. Primeiro, promover comunicação aberta e segura dentro da família, informando clara e abertamente à criança sobre o que aconteceu.

Segundo, garantir que terá tempo necessário para viver e elaborar o seu luto. Terceiro, disponibilizar um ouvinte compreensivo toda vez que sentir saudade, tristeza, culpa e raiva. Quarto, assegurar que continuará recebendo proteção.

É importante deixar a criança participar do velório?

DR. CLOVES:

No meu entendimento, sim. Se a criança correr, brincar, não tem o menor problema, é uma criança sendo criança.

Agora, não se deve obrigar a criança a beijar a pessoa morta. Se deve evitar que ela assista o momento que o caixão é sepultado, mas ir até o velório é uma atitude adequada.

Quando falamos em luto, geralmente pensamos na morte de alguém. Mas nós podemos viver o luto diante de outras perdas na vida, professor?

DR. CLOVES:

Nós podemos viver o luto diante de qualquer tipo de perda. Um divórcio, uma professora que é transferida ou até mesmo um animal que morreu pode causar luto na criança. 

Então, é importante entender que são muitas as fontes possíveis que podem levar a criança a experimentar e a vivenciar o luto.

A que sinais os pais devem estar atentos quando a criança não consegue elaborar direito a perda de um familiar? Como diferenciar uma tristeza que faz parte do luto de uma situação em que a pessoa precisa procurar ajuda profissional?

DR. CLOVES:

As crianças enlutadas, em geral, vivenciam um aumento da ansiedade, podem ficar um pouco mais tristes. 

Mas se essas reações são exageradas, por exemplo, se quando os pais saem de perto elas ficam desesperadas, se choram quando pensam que as pessoas mortas não voltarão mais, se estão muito assustadas, então é muito importante que o adulto possa acolher a criança oferecendo carinho, compreensão, amor, respeito, acolhimento e escuta. 

Mas se depois de seis meses a criança não melhorar, continuar apresentando dificuldades, então está na hora de procurar ajuda. 

Neste sentido, a gente acredita que mudanças intensas de comportamento, como insônia, inapetência, muitas brigas na escola, irritação, queda do desempenho escolar, desinteresse pelas atividades lúdicas ou de brincar, são sinais que a criança emite que deve se procurar uma ajuda de um psicólogo, de um psicoterapeuta infantil, de um psicoterapeuta especializado em luto.

Professor Cloves, a espiritualidade ou a fé podem ajudar uma pessoa a enfrentar o luto? De que maneira?

DR. CLOVES:

Bem, a palavra religião significa religar, ligar o mundo dos homens ao mundo da transcendência. Então, neste sentido, a presença e o desenvolvimento da fé, a presença de uma crença na vida além da morte, é uma forma muito adequada de nos consolar, porque, desta forma, a gente perde de vista a noção de que o ser humano, é um ser para o nada. 

Mas pelo contrário, iremos voltar para um plano de onde nós viemos. E Jesus foi o único que venceu a morte. Então, a ressurreição nos acalma. A ressurreição nos dá a dimensão de uma vida que a inteligência humana não consegue compreender. Mas que ela persevera e ela continua depois. 

E, também, quando nós temos fé, o ato de rezarmos pela alma da pessoa, quando nós falamos que a Igreja é constituída pelos vivos e pelos mortos, essas formas todas nos ajudam a diminuir o desespero, o buraco que fica no nosso coração quando morre alguém que nós amamos.

Leia a entrevista na íntegra

1831 - 26/10/2026 - Luto infantil, como lidar

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“Quando alguém morre, é certamente muito humano e natural chorar e sofrer, sentir a perda de alguém que nos é querido.”