
A criação de um filho exige muito mais do que cuidados físicos. É um desafio que demanda equilíbrio emocional, paciência e dedicação diária. Afinal, a criança está em constante aprendizado: descobrindo o mundo, formando sua personalidade, desenvolvendo suas preferências e aprendendo a expressar seus sentimentos.
As reações da criança, como choro, birras ou momentos de resistência, nem sempre são sinais de desobediência, mas formas de comunicar emoções que ela ainda não sabe expressar de outra maneira, até porque não se cobra algo de um adulto para uma criança que está conhecendo o mundo.
O que a educação não violenta propõe?
A Educação Não Violenta propõe justamente esse olhar mais atento e respeitoso. Nesta abordagem, tanto os pais quanto os filhos aprendem sobre limites, respeito e diálogo. As barreiras na comunicação são reduzidas porque cada um compreende melhor seu papel: o adulto como guia e responsável pelo cuidado, e a criança como um ser em desenvolvimento, que ainda está aprendendo a lidar com suas emoções e com o mundo ao seu redor.
Estudos mostram que crianças educadas em ambientes acolhedores, com diálogo e afeto, apresentam melhor desenvolvimento emocional, maior capacidade de resolver conflitos e relações familiares mais saudáveis.
Entrevista com especialista
Neste conteúdo, conversamos com Maya Eigenmann, neuropedagoga, especialista em educação positiva e escritora. Maya explica o que é educação não-violenta, os desafios na hora de educar uma criança e como os responsáveis podem lidar com isso da melhor forma.
Você pode acompanhar o conteúdo completo abaixo ou ouvir a entrevista no player de áudio desta página.
Neste conteúdo, você vai encontrar:
- O que é educação não violenta e como colocá-la em prática no dia a dia?
- Além da violência física, quais são as outras formas de educação violenta que devemos evitar?
- Como ensinar sem gritar ou punir?
- O que fazer quando a criança responde de forma desrespeitosa?
- Maya, como estabelecer limites sem ser autoritário?
- A educação não violenta cria filhos mimados? Os pais podem dizer “não” aos filhos?
- Como os pais podem trabalhar neles mesmos a paciência e o afeto para criar um ambiente de harmonia na criação dos filhos?
- Quais são algumas dicas para educar bem?
Maya EigenmanntEntrevista com Maya Eigenmann, neuropedagoga, especialista em educação positiva e escritora.
Maya, o que é educação não violenta e como colocá-la em prática no dia a dia?
MAYA:
A educação não violenta, a educação positiva, é uma educação que visa o tratamento digno da criança e o atendimento de todas as suas necessidades emocionais, físicas, psicológicas. Então, nós não fazemos nenhum uso de abordagens que machuquem a criança, seja ela fisicamente, emocionalmente ou psicologicamente. Nós cuidamos sim de sustentar limites, sempre que necessários, mas não fazemos isso de forma rude, de forma
brusca. E a forma que a gente coloca em prática no dia a dia, vem, antes de mais nada, com um compromisso pela integridade da criança e do adolescente.
Programa de rádio Viva a Vida – 1816 - 13/07/2026 - Educação Não Violenta
Esta entrevista é parte do Programa de Rádio Viva a Vida da Pastoral da Criança.
Ouça o programa de 15 minutos na íntegra
Além da violência física, quais são as outras formas de educação violenta que devemos evitar?
MAYA:
A educação não violenta, educação respeitosa, ela também é contra qualquer tipo de violência emocional. As chantagens emocionais, “dar gelo” na criança, sabe? Quando ela faz algo que tem um comportamento que não é adequado, aí a gente fica ignorando a criança, “dando gelo”, sabe? As pessoas acham que vão ensinar a criança a não se comportar mais daquela forma, mas, na verdade, a gente está simplesmente ensinando que, quando as coisas estão difíceis, a gente está abandonando a nossa criança. Então, exemplos como essa chantagem, também entram no que a gente chama de violência emocional e devem ser evitadas.
Como ensinar sem gritar ou punir?
MAYA:
Na verdade, é absolutamente possível ensinar sem nenhum desses recursos, sendo respeitoso, tendo amorosidade, paciência, muita conexão. Mas muitos adultos não têm paciência, querem a solução rápida e a solução rápida é essa, a violenta, porque quando você grita, a criança fica assustada e para de fazer alguma coisa. O problema é que ela faz isso a um custo altíssimo. Sem contar que está colocando em xeque essa relação que deveria ser uma relação de segurança entre o adulto e a criança.
O que fazer quando a criança responde de forma desrespeitosa?
MAYA:
O que precisamos entender é que a criança, quando tem um comportamento desrespeitoso, ela está fazendo duas coisas. A primeira é espelhando o que ela recebe. Então, provavelmente os adultos na vida dela, não estou falando só de pais, podem ser professores, parentes, enfim, se comunicam assim. A segunda, é que ela aprendeu que está tudo bem falar de forma desrespeitosa na hora que ela quer colocar um limite nos adultos. Isso também acontece porque adultos são extremamente invasivos. Ela não vai saber fazer isso de forma respeitosa, então ela vai falar de forma desrespeitosa, porque é isso que ela aprendeu nas relações. Por isso que eu digo: o que precisa acontecer é uma mudança sistemática nos adultos. Nós precisamos mudar primeiro, nós precisamos ser adultos melhores, dignos de sermos imitados pelos nossos filhos.
Maya, como estabelecer limites sem ser autoritário?
MAYA:
Na verdade, nós nos tornamos autoritários em colocar limites, porque nós temos a impressão de que a criança deveria nos escutar na primeira vez que a gente fala. E aí, quando isso não funciona, a gente já parte para o autoritarismo, para grosseria, para estupidez. Então, na verdade, colocar limites não é difícil. É só a gente sustentar aquele limite.
Por exemplo, a criança que quer o pirulito antes do almoço. Eu posso colocar esse limite e falar assim: “amor, não posso te dar, não vou te dar esse pirulito, porque é um excesso de açúcar antes do almoço”.
Agora, essa criança pode e tem o direito de não gostar desse limite. Ela não tem que ficar feliz. Ela não tem cérebro maduro para entender valor nutritivo, o que tem que ser comido antes, o que tem que ser comido depois. Isso não é responsabilidade dela, essa é a responsabilidade dos adultos. Então, ela tem todo o direito de reagir, seja lá como for.
Só que nós, adultos, ficamos ofendidos com essa reação, porque a gente acha que a criança deveria ficar feliz. E aí a criança vai ter a reação que ela tiver e eu não preciso desistir desse limite, e muito menos preciso partir para a grosseria pelo fato da criança não ter gostado do limite.
Ela pode não gostar, e eu vou acolher a reação dela: “eu vejo que você está triste, eu vejo que você queria muito esse pirulito”. E essa criança vai se expressar, vai ficar chateada, e eu não vou ceder, porque é uma questão de saúde, que é a minha responsabilidade.
Em resumo, eu posso sustentar o limite com justiça e gentileza.
A educação não violenta cria filhos mimados? Os pais podem dizer “não” aos filhos?
MAYA:
Claro que podemos dizer não. E quando nós colocamos limites com respeito, sem autoritarismo, sem grosseria, sem palavras violentas, os nossos filhos aprendem a atravessar a frustração diante de um não que nós damos.
E a responsabilidade emocional dos adultos é apoiar a criança a atravessar os desafios emocionais que ela enfrenta, inclusive quando somos nós que causamos o desafio emocional ao dizer um não. Então, nós não precisamos ter medo de dizer “não”.
Embora, quero abrir um parênteses, sobre como nós dizemos “não” com muito mais facilidade do que dizermos “sim”. Nós somos, geralmente, adultos que dizem muito “não”, colocam muito limite, mas que também precisam aprender a ser mais flexíveis.
Então, sim, podemos dizer “não”. Quando fazemos isso com respeito, nossos filhos se tornam não mimados e, sim, muito resilientes.
Como os pais podem trabalhar neles mesmos a paciência e o afeto para criar um ambiente de harmonia na criação dos filhos?
MAYA:
Primeiro é o autoconhecimento. Realmente compreender a própria história, perceber como as violências que se viveu na própria infância continuam respingando em outras pessoas, inclusive nos nossos próprios filhos, e que é nossa responsabilidade agora cuidar dessas feridas.
O segundo ponto é estudar. A gente muitas vezes se baseia no achismo para educar, isso é muito arriscado. É necessário estudar, inclusive indico a leitura dos meus livros, eu tenho quatro livros sobre educação positiva que apoiam adultos nessa busca de uma educação mais respeitosa.
Quais são algumas dicas para educar bem?
MAYA:
Uma frase que eu quero deixar para todos aqui, encerrando essa entrevista, é o título do meu primeiro livro: “A raiva não educa, a calma educa”. Não quer dizer que nós não vamos sentir raiva na hora de educar de vez em quando. Isso não é sobre não sentir, mas entender que, na hora da raiva, nós não vamos conseguir falar decentemente.
A maioria de nós, na hora da raiva, fica ríspido, grosseiro, desrespeitoso. Então, se você está com muita raiva da tua criança, do teu adolescente, dá um passo para trás, vai se acalmar de novo e depois que você estiver em um estado emocional mais regulado, aí sim você volta e educa a tua criança.
Leia a entrevista na íntegra
1816 - 13/07/2026 - Educação Não Violenta
3º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável
“Saúde e bem-estar”
Garantir o acesso à saúde de qualidade e promover o bem-estar para todos, em todas as idades
.
4º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável
“Educação de qualidade”.
Garantir o acesso à educação inclusiva, de qualidade e equitativa, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos
Dra. Zilda
“Em um lar sem brigas, as crianças crescem mais seguras, mais felizes e os adultos e sentem mais apoiados e confiantes no futuro”.
“O futuro exige que aprendamos a colaborar mais, a crescer juntos”.
