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Foto: Acervo da Pastoral da Criança

No Brasil, 20 de novembro é o Dia Nacional da Consciência Negra. A data recorda também o dia da morte de Zumbi dos Palmares, figura histórica, considerado um símbolo de resistência. A data foi instituída oficialmente pela lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011. Com a promulgação da Constituição de 1988, vários segmentos da sociedade, inclusive os movimentos sociais, como o Movimento Negro, obtiveram maior espaço no âmbito das discussões e decisões políticas. A lei de preconceito de raça ou cor (nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989) e leis como a de cotas raciais, no âmbito da educação superior, e, especificamente na área da educação básica, a lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que instituiu a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-brasileira, são exemplos que ajudam a ampliar e valorizar o importantíssimo papel da população negra na história do Brasil de ontem e de hoje.

Neste espaço, a Pastoral da Criança oferece informações, orientações e dicas de como reforçar a identidade e a autoestima da criança negra, seja no espaço doméstico, escolar ou comunitário. Além disso, o material apresentado aqui é um chamado à consciência sobre a igualdade de oportunidades, respeito e luta por garantias de desenvolvimento integral para todas as crianças negras de nosso país.

Nesta Semana da Consciência Racial, confira a entrevista com Neli Gomes Rocha, doutoranda em Sociologia, com especialização em Relações Raciais na Universidade Federal do Paraná.

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Foto: Ariene Rodrigues 

Neli Gomes Rocha

Vive-se em uma sociedade que não assume o racismo e, mesmo assim, sabe-se que ele existe. Como trabalhar com essas questões com as crianças, para que elas cresçam sem esse tipo de preconceito?

No caso das relações de racismo, que a gente tem acompanhado cada vez mais forte, uma questão é vencer o silêncio. É na escola que os conflitos aparecem. E, na escola, é importante que eles sejam tratados com a importância exigida. Por exemplo, se a gente pensar quem é que tem perfil de patrão e quem é que tem perfil de empregado, quem é que exerce a função de motorista e quem é que exerce a função de patrão: essas funções, historicamente, têm cor. O motorista, normalmente, é o que tem pele escura; e o que é o patrão tem a pele clara. Então, pensar sobre isso é desconstruir uma ideia de que os lugares são definidos.

“Um povo sem história, origem e cultura, é como uma árvore sem raiz”, diz Marcus Garvey, ativista negro. Como a família pode ajudar a criança negra a ver a sua representatividade no mundo em que vive?

Uma das coisas que é fundamental é a gente olhar para a contribuição africana dentro do nosso dia a dia. Essa memória tem uma matriz indígena e uma matriz africana que é preciso ser respeitada. Então, quando eu penso: como é que eu vou contar essa história do continente africano para o Brasil? Eu não posso contar só do ponto de vista da escravidão. Porque, aí, eu estou contando só uma parte, só a parte do sofrimento. E toda a parte de resistência eu não estou levando em consideração. Então, o meu papel, enquanto pai e enquanto mãe, é que eu busque saber a história do lugar de onde eu vim. E as escolas têm o papel fundamental para dar esse material que, em casa, a gente pode não ter.

A criança, muitas vezes, vivencia situações que já caracterizam preconceitos e, até mesmo, racismo. Como a família deve trabalhar para que os pequenos saibam enfrentar esse tipo de situação?

A primeira coisa é não silenciar. O diálogo é o caminho. O racismo só será superado quando esse hábito de quebrar o silêncio virar uma recorrente. O hábito de falar para não acumular essa dor, historicamente, nos foi negado. Porque nós fomos educadas para o silêncio, principalmente, as mulheres. E quando uma situação machuca, como é o racismo, a gente precisa por para fora de alguma forma.

Leia a entrevista na íntegra: 1259 - Entrevista com Neli Gomes Rocha - Dia da Consciência Negra (.PDF)

 

Esta entrevista é parte do Programa de Rádio Viva a Vida da Pastoral da Criança.
Ouça o programa de 15 minutos na íntegra

Programa de Rádio 1259 - 16/11/2015 - Dia da Consciência Negra

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O preconceito que temos e preferimos não enxergar

A questão do negro no Brasil, ainda hoje – 127 anos após a Lei Áurea ser assinada –, ainda precisa de um olhar atento. A libertação oficial não significou liberdade, tão pouco reconhecimento da sua contribuição para a construção do país durante mais de 350 anos de escravidão.

O que se viu foi uma falta de política social após essa “libertação” que gerou um sofrimento vivido até hoje pelos descendentes dos escravizados. As crianças negras, por exemplo, têm quase 70% mais chance de viver na pobreza do que as brancas. Das 535 mil crianças entre os 7 e 14 anos que estão fora da escola no Brasil, 330 mil são negras (Relatório da Unicef, 2010). São as mesmas crianças que correm mais riscos de serem abandonadas, de crescerem apenas com a mãe, e de aprender que o "belo" é um padrão que não é o dela, aliás é seu oposto.

Críticas em redes sociais, abordagens preconceituosas em espaços públicos, alto número de mortes de jovens negros, e o alto número de mulheres negras que são vítimas do feminicídio (perseguição e morte intencional de pessoas do sexo feminino), são apenas alguns dos efeitos mais visíveis do preconceito racial. Mas o maior problema – e talvez este seja o mais grave – é quando o preconceito não é reconhecido como tal.

E é isso que quem é negro vê todos os dias, quando alguém se sente a vontade para fazer uma piada – afinal era só uma piada; ou quando a polícia não se conforma que um menino negro possa estar na rua brincando sem ser um traficante; ou quando alguém fala para uma menina que ela precisa alisar o cabelo, afinal ela ficaria tão mais bonita sem um cabelo armado... Ou mesmo quando alguém insiste em dizer “você não é negra, você é morena”, como se for negra fosse apenas uma questão de cor – e que ser preto fosse negativo - e não de identidade.

Cerrar os olhos e fazer de conta que o racismo e o preconceito social não existem, e que estão presentes todos os dias, bem ao nosso lado, é o maior erro que se pode cometer. Ele existe e está em cada um, isso inclui quando você atravessa a rua quando vê um negro vindo em sua direção; ou quando descobre que o negro está se formando em Direito, e não Educação Física – afinal, são tão bons esportistas... -; ou quando você se surpreende porque uma pessoa negra se formou na faculdade. Pública. Sem cotas.

Compreender o preconceito que está dentro de cada um de nós é o primeiro passo para mudar. Dar o exemplo para as crianças é o segundo. Se isso não acontecer, vamos continuar a ver um Brasil que parece mais saído do século 19. Aliás, ele realmente saiu?

Saiba mais: Você tem preconceito? - Texto de Rosely Sayão

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