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Aprender a Viver Juntos

Seção 5

138

Estudos de casos

Os educadores e os facilitadores podem utilizar estudos de casos baseados em situações e em pessoas 
da vida real como material para discussões sobre questões e situações éticas que afetam a dignidade 
das pessoas e os direitos humanos. Estudos de casos bem redigidos podem conduzir as crianças e os 
adolescentes a um outro mundo, que é descrito a partir do ponto de vista da pessoa envolvida. Os 
estudos de casos servem também para apresentar questões que são familiares aos participantes, o que 
pode ajudá-los a refletir sobre suas próprias situações sem a necessidade de identificá-las.

Por meio dos estudos de casos, as crianças e os adolescentes analisam uma situação que tanto lhes 
pode ser relativamente familiar como completamente desconhecida. Os estudos de casos podem ser 
um instrumento importante para desenvolver a empatia, já que a informação é apresentada do ponto 
de vista da pessoa afetada e não simplesmente como um “relato noticioso”. Pensar sobre o estudo de 
caso e as opções apresentadas pode contribuir para estabelecer uma forte identificação com o tema.

O uso de estudos de casos estimula o pensamento crítico e as habilidades analíticas, desenvolvendo a 
capacidade das crianças e dos adolescentes de fazer perguntas e discutir alternativas. Os estudos de 
casos  também  ajudam  os  participantes  a  examinarem  suas  próprias  atitudes  e  comportamentos 
através da vida dos outros.

Os estudos de casos não requerem necessariamente uma solução; eles descrevem uma situação que 
talvez já tenha um “final” ou conclusão. Geralmente o material que aparece nesses estudos é extraído 
da vida real.

Se você utilizar um estudo de caso sobre a violência contra as crianças, poderá recorrer ao material 
reunido no Relatório Mundial sobre a Violência contra as Crianças.

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Estudo do Secretário-Geral das Nações Unidas sobre a Violência contra as Crianças. http://www.violencestudy.org/r236

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Seção 5

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Estudo de caso 1 – A história de Ana

“Eu morava no Alto Baudó até quarta-feira, 5 de fevereiro, dia em que resolvi deixar a aldeia 
para me refugiar em Esmeraldas, Equador. Chamo-me Ana.

Na véspera, eram 6 da manhã, chegaram ao povoado integrantes de um grupo armado que 
atua na região e nos chamaram todos para uma reunião. Entre os assistentes estava Andrés, 
meu irmão. Tiraram-no da reunião e começaram a maltratá-lo, acusando-o de colaborar com 
o outro bando. Andrés tentou se explicar, mas não o deixaram. Mataram-no com um tiro de 
fuzil na cabeça. Deixou uma esposa de 20 anos e três garotos.

Eu tive mais sorte: salvei minha vida! Mas deixaram claro que eu deveria ir embora e que se 
pegassem minha filha, eles a matariam! Foi o que disseram.

Tenho 49 anos e oito filhos. Um que estudava em Quibdó foi embora com um grupo armado, 
o mesmo grupo que me ameaçou e matou meu irmão. E essa filha que foi embora com o
outro bando.  Imaginem  o  dia  em  que  esses  dois  se  encontrarem  frente  a  frente!
Que  tristeza é  a guerra!

Então, sem ter tempo sequer de pegar uma roupa, fui embora com meus seis filhos menores, 
minha cunhada e meus sobrinhos. Preferi escapar e deixar tudo o que tinha em vez de ficar à 
mercê dos grupos armados que desde 2001 brigam pelo controle da região.

Nas outras vezes, a briga não havia chegado ao povoado e nós nos escondíamos nas
fazendas ou na montanha até que passasse o momento crítico. Às vezes esperávamos
até dois meses. Mas  o  que  aconteceu  agora  foi  horrível:  os  dois  grupos  entraram
em  combate  no  próprio povoado, ameaçaram as pessoas e até mataram uma. Um bando
também pegou um inimigo e, depois  de  matá-lo  e  destroçá-lo,  o  jogaram  no  rio.  A  
situação  estava  muito  perigosa  e decidimos fugir do Alto Baudó.

Cheguei  com  meus  seis  filhos  a  Esmeraldas.  Não  foi  fácil.  Temos  medo  de  que  nos
tirem daqui.  Eu  vendo  frutas  e  o  que  ganho  dá  para  pagar  um  quartinho  onde  vivo
com  meus filhos. Um dos meus filhos trabalha como mensageiro, mas não o pagam há três
meses. Jorge, de 19 anos, foi preso na semana passada porque o acusaram de ter roubado
um relógio. Mas é que não tínhamos o que comer.

Os outros não conseguiram trabalho. Às vezes os vizinhos nos chamam de narcotraficantes, 
guerrilheiros, e até nos tratam mal, mas prefiro isso a voltar para a Colômbia para viver na 
guerra.  Eu  não  acho  que  o  governo  colombiano  vai  solucionar  esse  problema.  Nunca 
regressarei a meu povoado enquanto estes grupos armados estiverem na região. 
Encontramos refúgio em Esmeraldas. Do que vamos viver? Não sei, mas que opções tenho?
Estou preocupada com minhas crianças menores: não há vagas nas escolas estaduais
e eu não posso pagar seus estudos em uma escola privada. O que vão fazer o dia todo?”

>  O que você sente por Ana?
>  O que Ana poderia fazer para melhorar sua situação e a de seus filhos?
>  A quem poderia pedir ajuda?
>  O que você faria se estivesse na situação de Ana?
>  Há pessoas como Ana em sua cidade?
>  Você poderia ajudá-las de alguma maneira? Como?

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Seção 5

140

Estudo de caso 2 – Em busca de melhores oportunidades

Jaime é um pai de família que trabalhava com construção e ganhava o suficiente para sus-
tentar sua família. Com a crise  econômica e a violência em seu país, o setor da construção
se deteriorou e muitas pessoas foram afetadas por essa situação. Jaime foi demitido depois
de dez anos de trabalho na empresa de construção que o empregava durante um ano, Jai-
me procurou trabalho, mas não encontrou nada. Sua esposa Cláudia decidiu buscar traba-
lho como empregada para ajudar a pagar os gastos da casa e a escola de seu filho Carlos.

A situação ficou mais difícil; mesmo com o trabalho de Cláudia, o dinheiro não era
suficiente. Um amigo de Jaime o aconselhou a ver outras opções fora do país. Nessa ocasião,
muitos saíam e cruzava a fronteira para buscar um futuro melhor. Não era fácil, mas era muito
melhor que ficar nessa situação. Jaime não tinha certeza, porque começar do zero em outro
país e deixar sua família não era fácil para ele, mas a situação econômica era crítica.

Depois de muito pensar, Jaime e sua esposa Cláudia chegam à conclusão de que o
melhor era que ele se vá. Para isso, Jaime teria que pegar o pouco de dinheiro que
a família ainda tinha. Jaime promete a Cláudia que encontrará um trabalho rápido e
mandará dinheiro para ela e para Carlos.

Passam-se alguns meses e Cláudia não sabe nada de Jaime. Sua situação econômica
se complica e Cláudia se vê obrigada a conseguir outro trabalho de noite e nos finais
de semana. Carlos já quase não vê sua mãe e nada sabe nada de seu pai nos últimos
meses. Essa situação afeta seu rendimento escolar e emocional e Carlos começa a faltar
à escola e a sair com um grupo de jovens deseu bairro que consome drogas.

A  professora  de  Carlos  percebe  a  mudança  drástica  em  seu  comportamento  e 
rendimento acadêmico e fala com Cláudia, que não entende o que acontece com Carlos e,
ao falar com a professora,  começa  a  chorar.  Ela  diz  que  tudo  melhorará  quando  
Jaime  começar  a  enviar dinheiro.

Entretanto, a situação não mudou para Cláudia. Carlos não quis voltar para a escola; pelo 
contrário, refugiou-se ainda mais com seus amigos, em quem encontrava companhia, apoio e 
distração. Depois de alguns meses, Carlos entrou no negócio de venda de drogas e fugiu de 
sua casa. De seu pai não se soube mais nada.

>  Você acha que Carlos poderia ter evitado unir-se a esse grupo de jovens?
>  Você acha que Carlos tinha outras opções? Quais?
>  O que você acha que Cláudia poderia ter feito para não ficar fora de casa o dia todo?
>  Você acha que a escola poderia ter ajudado Cláudia ou Carlos?
>  Você acha que Jaime tinha outras opções?
>  Você conhece o caso de outros jovens que tenham passado por situações semelhantes ou 

que tenham se refugiado nas drogas? O que os levou a isso?

>  Qual é o papel da família e dos amigos numa situação como esta?
>  Se sua família estivesse em uma situação econômica semelhante e seus pais tivessem que 

se ausentar, qual seria a sua responsabilidade? A quem poderia pedir ajuda?

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Seção 5

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Estudo de caso 3 – O caso de Oscar

Oscar é um excelente estudante e um dos melhores jogadores de futebol de sua escola. Em
sua casa, sempre é muito educado e ajuda seus pais nas tarefas domésticas. Seus amigos e 
conhecidos o chamam “o negro” devido à cor de sua pele. Oscar é de uma família modesta e 
trabalha nos fins de semana com sua mãe no mercado para ajudar nos gastos de sua família.

Um dia, o diretor da escola comunica a Oscar e à sua mãe que talvez Oscar ganhe uma 
bolsa para continuar seus estudos de ensino médio em uma escola privada que fomenta a
prática dos esportes para os estudantes, onde Oscar teria a possibilidade de receber treina-
mento adequado e especializado em técnicas de futebol. Oscar mostra grande interesse e
sua mãe pensa que é uma excelente oportunidade para ele.

Oscar ingressa na nova escola, mas os primeiros dias são muito difíceis para ele. Nas aulas,
é participativo e ágil, mas isso incomoda os outros estudantes, que riem e murmuram toda 
vez que Oscar participa. A maioria dos estudantes pertence a famílias de classe alta e
sempre levam para a escola jogos eletrônicos e fazem alusão a jogos de que Oscar nunca. 
ouviu falar Oscar não sabe como interagir com seus companheiros.

Oscar vai aos treinamentos de futebol toda semana e trabalha duro. Depois de um mês, o 
treinador o nomeia titular da equipe graças à rapidez e à agilidade de Oscar no campo de 
futebol.  Mas  seus  companheiros  de  equipe  não  desejam jogar com ele e o ignoram 
completamente,  às  vezes  escondem  seu  uniforme ou sua chuteira, e o insultam com 
comentários racistas. Oscar acredita que com o tempo a situação mudará e decide não
dizer nada ao treinador ou à sua mãe.

A situação não muda e Oscar se sente rejeitado e sozinho na escola, o que afeta seu
desempenho nos jogos de futebol. Os jogos intercolegiais começam e Oscar pede ao trei-
nador que não o coloque  para  jogar.  Entretanto,  o  treinador  sabe  que  Oscar  é  um
excelente jogador e deve estar nos jogos. Em um dos jogos, Oscar faz um gol contra e a
equipe perde, o que causa a eliminação da equipe para as semifinais.

Dias depois, alguns estudantes esperam por Oscar na saída do colégio, batem nele e o insul-
tam. Depois de ficar hospitalizado por três semanas, Oscar nunca mais voltou ao colégio.

>  Oscar poderia ter feito algo a respeito da situação?
>  Você acha que foi uma boa decisão entrar nessa escola privada, conhecendo as dife-

renças econômicas entre Oscar e seus companheiros?

>  Você acha que os comportamentos dos companheiros de Oscar são aceitáveis? Por que 

agiram dessa forma?

>  O que você acha que o treinador poderia ter feito?
>  O que podemos fazer quando nossos direitos são violados?
>  Como podemos nos defender e nos fazer respeitar de forma pacífica?
>  Você conhece algum caso de discriminação em sua escola ou bairro? Você pode fazer

algo a respeito?

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Seção 5

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Estudo de caso 4 – Essa gente que vem de fora!

Carlos Andrés nasceu em Villa Montes, uma pequena cidade boliviana perto da fronteira 
com a Argentina, e acaba de completar 24 anos. Faz cinco anos que vive sem papéis legais
em San Salvador de Jujuy, cidade do norte da Argentina. Não tem um trabalho estável, 
mas se defende como vendedor ambulante de mercadorias chinesas. Economizando, 
conseguiu adquirir uma moto.

Ángela, uma bonita jovem de 18 anos nativa de Jujuy, venceu os preconceitos e há um ano
sai ocasionalmente com Carlos Andrés, escondida de sua família. Ángela tem medo dos 
seus três irmãos, sobretudo de Jorge, o mais velho, que a proibiu terminantemente de se
envolver com “esse índio desgraçado”.

Ángela aparece grávida de três meses e se nega a dizer quem é o pai. Jorge, sem pensar
duas vezes, espera Carlos Andrés na entrada da casa onde ele aluga um pequeno quarto.
Quando Carlos  Andrés  desce  de  sua  moto,  Jorge  o  apunhala  pelas  costas,  toma  sua
moto  e  foge velozmente.

Jorge é engenhoso: leva a moto até um precipício, joga-a no fundo do vale e volta para sua 
casa.  Carlos  Andrés  está  no  hospital  e  sua  vida  corre  perigo.  Jorge  se  dirige  à 
testemunha que presenciou o assalto: conta que o indígena foi assaltado por dois homens,
que Delegacia  e o apunhalaram para roubar a moto. Insiste que presenciou o fato mas não
agiu em defesa da vítima por medo de ser agredido pelos ladrões.

Enquanto isso, Ángela sente amarga tristeza pelo que aconteceu a seu amigo, mas não 
suspeita quem  possa  ter  cometido  o  crime.  Depois  de  quatro  dias,  Carlos  Andrés 
morre.  Ángela confessa à sua família que o pai de seu futuro filho é um professor de seu
colégio, onde ela cursa o último ano de estudos.

Passam os dias e os meses e Ángela dá à luz uma preciosa criança. O professor de Ángela
nega sua  paternidade  e  Jorge  continua  sua  vida  como  se  nada  tivesse  acontecido.
A  jovem  mãe batiza seu filho com o nome de Carlos Andrés, em homenagem a esse 
boliviano que sempre foi  seu  amigo,  leal  e  respeitoso.  Seu  irmão  Jorge  não  pode  
dizer  nada  a  respeito,  mas  sua consciência ainda o impede de esquecer que não só 
cometeu um crime, como foi também o artífice de um imenso engano.

>  Pode-se justificar de alguma forma o que Jorge fez?
>  Se Jorge não concordava com a amizade de Carlos Andrés e Ángela, você acha que

havia outras formas de deixar isso claro à sua irmã?

>  Que preconceitos temos de outras pessoas?
>  Que alternativas não violentas existem para resolver situações de conflito?