1414 a crianca e o consumo menino com muitos brinquedos

Foto: Marcelo Caldin

Nas últimas décadas observa-se que, cada vez mais cedo, as crianças estão influenciado as compras e aquisições familiares. A oferta de produtos infantis não se restringe apenas aos brinquedos. Alimentos, cosméticos e roupas estão cada vez mais direcionadas aos público infantil, apelando para marcas e personagens infantis, estimulando o poder de escolha cada vez mais precocemente.

Nas prateleiras dos supermercados e lojas, a utilização de personagens de desenhos infantis é cada vez mais comum. Produtos praticamente iguais, apresentam uma variação de preço muito grande, dependendo do desenho estampado.

Com a aproximação do Natal, os pais se deparam com o dilema de satisfazer os sonhos e desejos dos filhos, com a compra de brinquedos cada vez mais caros e o compromisso de transmitir valores, onde o ser deve “ser“ mais importante do que o “ter”. Inspirados por propagandas, cada vez mais coloridas e animadas, e o comportamento dos adultos, as crianças esperam pela data mais festiva do ano.

O mercado de produtos infantis cresce a cada dia, influenciado pelo aumento do poder dos filhos sobre os pais na hora da compra. Segundo o último censo do IBGE, 28% do total da população brasileira têm menos de 14 anos. São mais de 35 milhões de crianças até 10 anos de idade, que alimenta um mercado que movimenta cerca de 50 bilhões de reais, segundo informações do Instituto Alana, de São Paulo.

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“O consumo nesta fase da vida, até os 12 anos de idade, é estimulado em primeiro lugar pela publicidade na televisão, seguido pelo uso de personagens famosos que fazem parte do imaginário infantil e pela embalagem dos produtos”, esclarece Isabela Henriques, advogada e coordenadora do projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana. Isabela exemplifica esse consumo exagerado, “um estudo realizado no Reino Unido mostrou que as crianças britânicas de 10 anos conhecem 300 a 400 marcas famosas, mais de 20 vezes o número de espécies de aves que sabem o nome”.

Esse comportamento consumista, que começa quando se dá mais valor para o “ter” do que o “ser”, além de prejudicar as finanças da família, também compromete a sustentabilidade da vida humana no planeta Terra. Isabela alerta que o consumo também é um dos fatores que agridem o meio ambiente, “Atualmente, mesmo com metade da humanidade situada abaixo da linha da pobreza, já se consome 25% a mais do que a Terra consegue renovar. Se a população do mundo passasse a consumir como os habitantes dos países desenvolvidos, mais três planetas iguais ao nosso não seriam suficientes para garantir os recursos naturais, produtos e serviços básicos como água, energia e alimentos para todo mundo”.

Umas das alternativas para combater esse espírito consumista que aflora cada vez mais cedo nas crianças é aproveitar as datas comemorativas, como o natal, dia das crianças e aniversários, para ensinar as crianças a exercitarem o desapego de bens materiais. Estimular a doação de roupas, brinquedos e moveis, a confecção de brinquedos caseiros ou o restauros de brinquedos usados, é também uma forma mais tranquila de mostrar que as comemorações não são só a compra de brinquedos e produtos.

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Marcia Mamede e a importância do brincar

Márcia Mamede - Educadora e Assistente Técnica da Coordenação Nacional da Pastoral da Criança

A Criança e o consumo

Seus filhos são consumistas? Querem comprar tudo que veem?

Muitos pais reclamam que seus filhos são consumistas, que fazem verdadeiros escândalos em lojas e supermercados porque querem algum brinquedo, por exemplo. Mas as crianças não consomem sozinhas, quem são os responsáveis pelas crianças? Não são os pais?

Muitos pais se veem doidos diante da insistência das crianças que querem comprar um novo brinquedo, como fazer com o orçamento doméstico que não alcança? Afinal, como devemos agir com a criança consumista? Márcia Mamede, educadora e assistente técnica da Coordenação Nacional da Pastoral da Criança, esclare algumas questões sobre o consumo infantil e também dá dicas para os pais enfrentarem essas situações.

Estamos nos aproximando do Natal, que deveria ter um sentido mais bonito e verdadeiro, mas acaba se tornando um período de intenso consumismo para as crianças e de grande estresse para os pais, porque acontece isso?

Creio que estamos vivendo em uma época em que o “ter” está se tornando a meta das pessoas. Parece que isso é o importante, ser bom, amoroso, justo, respeitar o outro, parece que está fora de moda. O significado real de uma data como o natal, que celebra a vinda e a vida de Jesus, celebra a alegria pelo nascimento de uma criança, que veio para nos dar o exemplo de valorizar o amor, o cuidado, respeito ao próximo, são celebradas agora em muitas famílias como o momento de compra de presentes, ou seja, para o consumo.

Quando os hábitos de consumo começam a ser formados na criança?

Sabemos que as crianças aprendem basicamente pelo que vivem, e isso desde bem pequenas. Se a criança vê mãe, pai e familiares comprando além do necessário, se elas ficam muito tempo vendo TV e propagandas, se ninguém conversa com elas sobre o que elas estão vendo, sobre aquele apelo desenfreado ao consumo que é transmitido, elas vão se habituar que a regra é consumir, que consumir é que é o certo.

Os pais que procuram dar tudo, ou quase tudo, que a criança pede, estão com certeza, formando um consumidor que vai querer sempre mais, portanto, nossas atitudes junto a criança podem ensinar a valorizar bons hábitos e atividades.

Que consequências o consumismo exagerado traz para a criança?

Criança que vai sendo acostumada a conseguir tudo, ou quase tudo que quer, tem todas as chances de se tornar um consumista compulsivo. Ficar raivosa, frustrada, quando não consegue o que quer, ela também pode se tornar egoísta, pois se acostuma a receber muito e não se preocupa em dividir, dar algo para o outro.

Dra. Zilda

“Brincar é essencial pra vida da criança como é respirar, como é mamar no peito. O brincar é muito importante. Então, na Pastoral da Criança, nós ensinamos as mães a grande vantagem para a criança, quando ela tem oportunidade de brincar e a mãe, os pais, os avós, todos cuidam disso.”.

Papa Francisco

“Digamos juntos do fundo do coração: nenhuma família sem teto, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem possibilidades, nenhum idoso sem uma veneranda velhice.”.

O consumismo pode ser também um mecanismo de compensação, uma espécie de barganha?

Hoje em dia, como a maioria das mães e dos pais saem para trabalhar fora o dia todo, o tempo para dar atenção a criança diminuiu, e muitos pais se sentem culpados e em divida por isso. Acham que para compensar a falta da presença e o pouco tempo que podem dar atenção aos filhos, seria comprando o que eles pedem, seja brinquedos, comidas , roupas, pensando que estão fazendo o melhor pra eles, mas essa compensação é enganosa, oferecer o melhor a criança não deve se restringir a brinquedos, roupas, tudo o que elas veem e pedem, oferecer o melhor, refere-se principalmente aos cuidados que tem no dia à dia com a saúde, como esta educando aquela criança, como esta formando os hábitos. É dar, quando estiver com ela, uma atenção plena, ficar inteiro com a criança.

Muita gente associa consumismo à diversão, mas será que é preciso consumir para se divertir?

Hoje em dia, diversão se tornou, praticamente, o nome do consumismo, ou seja, para as pessoas se divertirem, ficarem satisfeitas, tem que estar comprando alguma coisa, comendo ou bebendo. Consumir não é condição para que as pessoas possam viver com alegria, saúde, satisfação, se divertir, tem que mudar isso.

Um exemplo: juntar os vizinhos em um final de semana, pais e filhos brincando juntos, fazer uma roda de música, tocar e cantar juntos. Mais alegria une as pessoas, reforça a convivência e não se consome nada.

A Pastoral da Criança incentiva as “ruas de brincar”, e você sempre diz que devemos encher as ruas com brincadeiras. Como implantar essa atividade nas nossas cidades?

A rua é um espaço aberto para o público, que encontramos perto das casas, nas comunidades. Tendo uma rua que seja tranquila, que possa em um cantinho ou no final da rua separar, ou um terreno que já esta limpo ou possa dar uma ajeitadinha, um espaço em um pátio de uma igreja, um lugar assim, que as famílias, os brinquedistas, os lideres da Pastoral, convidem as famílias a levar seus filhos e filhas a brincar ao ar livre, já é possível fazer a atividade. Além das crianças estarem brincando juntas, elas estão chamando a atenção para importância de encontrar um espaço para as crianças brincarem, se movimentarem, tomar sol, unindo as pessoas em uma atividade comunitária.

E os pais precisam refletir sobre a própria relação com o consumo, não é mesmo?

Exatamente. As crianças pequenas que veem que consumir é fonte de prazer, também vão querer imitar, elas vão querer ficar contente também.

As crianças sempre querem os presentes caros, que orientações você daria para os pais que se encontram nessa situação?

A criança gosta muito de novidade, de coisa que desafia, que muda a rotina. Contar uma história, brincar com os filhos, ouvir uma música que esta no rádio e convidar a criança para participar: “vamos embora, vamos ver como é que a gente faz com essa música, como é que a gente dança”.

Também podemos conversar com a criança e explicar que têm coisas que são muito caras, que o dinheiro do papai e da mamãe não dá, e propor de pegar uma sucata e fazer alguma coisa parecida com aquele brinquedo junto com a criança.

No dia do natal, por exemplo, vamos ver o que a gente pode fazer de comida, na hora do natal fazer alguma brincadeira, algum teatrinho, porque, se os pais ficarem com essa preocupação de darem tudo que a criança pede, ou alguma coisa que eles não podem, vai criando esse hábito de consumir.

Presente de natal pode substituir a falta de atenção e presença dos pais?

Não substitui. E criança quer mesmo é ter os pais junto dela.

 

Esta entrevista é parte do Programa de Rádio Viva a Vida da Pastoral da Criança.
Ouça o programa de 15 minutos na íntegra

Programa de Rádio 1158 - 09/12/2013 - A criança e o consumo

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Como a Pastoral da Criança faz

A Pastoral da Criança, em seu jornal mensal, incentiva que as celebrações da vida do mês de dezembro, não sejam apenas festas com presentes e comidas, e que o ponto alto da celebração não seja a chegada do Papai Noel. Desde 2011, o jornal traz atividades para que os líderes e famílias façam com as crianças. Em 2011 foi publicada uma página especial, contando a história e o significado dos principais símbolos natalinos. No jornal de 2012 as crianças foram convidadas a montar e pintar um presépio e refletirem sobre o significado do Natal. Para a edição de dezembro de 2013, as crianças terão a oportunidade brincar com um quebra cabeça que retrata a sagrada família.

Modelo de teatrinho de Natal: Jesus Nasceu!

Natal 2011 natal 2012 Natal 2013
Atividade 2011 pdf  Atividade 2012 pdf  Atividade 2013 pdf

Pastoral da Criança de Diamantino (MT) encena presépio de natal

celebracao-de-natal-em-diamantino-mato-grossoPara festejar o Natal, os líderes e voluntários da paróquia são Cristóvão, em Diamantino (MT), realizam um teatro sobre o Natal e durante o mês de dezembro percorrem todos os bairros do município fazendo a encenação e realizando uma celebração de Natal ecumênica. Irmã Ana Lopes de Souza conta um pouco da atividade que é realizada.

“Na Paróquia São Cristóvão nós sentimos a necessidade de levar para nossas crianças e famílias a verdadeira história do Natal, pois para muitos o Natal era simplesmente o ganhar presentes do Papai Noel. Com os líderes e voluntários da Pastoral da Criança decidimos preparar uma linda encenação de Natal, onde passamos em todos os bairros realizando esta linda celebração de Natal ecumênica, seguida de um lanche gostoso. Foram tardes lindas e gratificantes ao ver os olhos brilharem na presença de Jesus que vem trazendo a vida nova e esperança de dias melhores para todos nós.”

1616º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável

“Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis”.

A Pastoral da Criança procura promover ações sustentáveis, como brinquedos com materiais reciclados e Hortas Caseiras juntamente às comunidades. Os líderes são capacitados e orientados para essas atividades e multiplicam estes conhecimentos nas famílias e comunidades que acompanham.