dra zilda arns neumann pastoral da crianca

 

FANTÁSTICO (RJ) • REPORTAGEM • 17/1/2010 • 20:30:00 • GLOBO

 

 

O soldado Luis Diego Moraes fez imagens impressionantes que mostram os minutos seguintes à tragédia de Porto Príncipe. Naquele momento, ele nem sabia que era um terremoto que havia derrubado a Igreja Sacre-Coeur. Foi ali que morreu a doutora Zilda Arns. A única coisa que restou da igreja foi o crucifixo. Quando resolveu ligar a câmera, o soldado Moraes não tinha a menor ideia do que estava acontecendo. A cruz que aparece no vídeo é a única parte da igreja que ficou complemente intacta. Todo o escombro é resultado da queda de uma torre, que veio abaixo no meio da rua. Na manhã deste domingo, de volta ao cenário de horror, o soldado levou a equipe do Fantástico até a escola. O repórter Rodrigo Alvarez mostra o local antes da porta, por onde Zilda Arns passaria na tentativa de sair, quando o prédio começou a balançar com o terremoto. O jornalista conversou com o intérprete Azor beloni que esteve com ela até momentos antes da tragédia. “Ela uma reunião com todos os capelães para falar sobre como combater a fome”, conta o homem. ona Zilda Arns acabava a palestra quando os dois prédio ruíram ao mesmo tempo. O soldado conta que também estava lá dentro, mas que, minutos antes, quando a fundadora da Pastoral da Criança estava quase saindo, teve ordens para esperar do lado de fora. Só que Zilda Arns, a brasileira que foi indicada ao prêmio Nobel da Paz pelo trabalho de combate à desnutrição infantil, não teve o mesmo destino. “Ela é uma pessoa muito afetuosa. Demonstrou bastante carinho por todos que estavam ali, pelas crianças haitianas. Cumprimentou todos nós”, conta o soldado Luis Diego Moraes. A irmã Rosangela estava com dona Zilda e também se salvou. “Eu fiquei desesperada, porque eu me perguntava onde estava a doutora Zilda. Nessa hora, subiu uma poeira branca, depois que tudo caiu no chão, que cobriu tudo”, lembra. “Era para eu estar junto e ter morrido”. Moraes se salvou, mas não pode comemorar. Quatro colegas estavam desaparecidos, e 14 tinham morrido soterrados. O cabo Douglas Pedrotti era um dos dez que estavam no Ponto Forte 22, o local da maior tragédia brasileira no terremoto haitiano. No Forte Nacional, onde o exército brasileiro comandava um ponto de apoio, mais três baixas. Um lugar escavado entre os escombros era onde estavam dois soldados. Eles ajudavam no atendimento médico de haitianos. “Eu cheguei a ficar soterrado da cintura para baixo. Enquanto eu ia me mexendo, as pedras iam se soltando e eu consegui sair lá de dentro”, afirma capitão Marcelo de Oliveira. Não tivemos permissão para gravar imagens do hotel, onde funcionava a sede da ONU. No local, o corpo de outro brasileiro foi encontrado, o embaixador da ONU Luiz Carlos da Costa. Ele foi indicado para a missão da ONU no Haiti em 2006, para um trabalho de integração entre civis, militares e também policiais. Bem perto do hotel, 24 bombeiros americanos trabalhavam em um outro resgate. A mulher de um engenheiro está lá dentro. Viva, ele acredita. Horas antes, quase cinco dias depois da tragédia, eles ainda ouviam gritos pedindo socorro e teriam até recebido uma mensagem de texto pelo telefone celular. “Ainda há esperança” é como pensam centenas de brasileiros que, trabalham quase sem descanso na recuperação desse país que já era pobre e agora caiu aos pedaços.