dra zilda arns neumann pastoral da crianca

 

FANTÁSTICO (RJ) • REPORTAGEM • 17/1/2010 • 20:30:00 • GLOBO

 

 

A morte de Zilda Arns deixou de luto uma pequena cidade no interior do Paraná: Florestópolis, onde nasceu a Pastoral da Criança, projeto pioneiro que salvou e ainda salva milhares de vidas mundo afora. Há 26 anos, um município de 12 mil habitantes no norte do estado foi escolhido por Dona Zilda para ser o berço da Pastoral da Criança. "É muito orgulho a gente saber que uma cidade pequena, uma cidade muito pobre, mas que teve uma grande mulher que enfrentou todas as dificuldades que ajudou a juventude dessa cidade a crescer forte e saudável", comenta a voluntária Inez Florindo. Mas por que Florestópolis? A cidade tinha uma das piores taxas de mortalidade infantil no estado: 128 mortos a cada mil nascimentos. E foi em uma casa, no centro da cidade, que tudo começou. Nela foi realizada a primeira reunião que deu origem à Pastoral da Criança. Era setembro de 1983. Representantes do Unicef, religiosos e voluntários lançaram as bases do projeto que mais tarde ganharia o mundo. “Já ficou provado que, se todas as crianças vacinarem, por exemplo, 30% das mortes deixarão de existir”, disse Dona Zilda, na época.Houve quem desconfiasse da médica que propunha soluções ‘milagrosas’. "Eu falei que essa mulher era louca. Ela vinha com uma conversa de colocar um preguinho no feijão, coar e ferver a água e a criança não morrer. Falei: ‘vamos estudar isso’", lembra o voluntário Romeu Paulino. No local, onde hoje é uma sala de reuniões, funcionava o primeiro berçário da Pastoral, para onde eram levadas as crianças muito magras em estado mais crítico, com risco de morrer. "Tinha criança que só tinha o olho grande, era magra e que até machucava a mão da gente, ao dar banho e cuidar", recorda a ex-voluntária Luzia Pecci. Com tanta dedicação, o resultado em Florestópolis apareceu logo no primeiro ano."Para mil nascimentos, nós tínhamos 127 mortes. Depois de um ano, nós tivemos para mil nascimentos nós tivemos 28 mortes apenas", conta a secretária de Educaçãode Florestópolis, Ivone Carnelossi. Filho de uma mulher muito pobre, o professor Rafael Senhorini, hoje com 22 anos, chegou à Pastoral com menos de um mês, pesando apenas 1,8kg. Dona Maria, então voluntária, se comoveu com a história e adotou o menino. "Deus colocou ele na minha vida e eu, na vida dele", diz a voluntária Maria Senhorini. A sobrevivência foi celebrada em família. "Vendo a foto e a gente vê na televisão tantas crianças desse jeito. Não tem outra explicação, foi Deus", comenta o jovem. "Se não fosse a Pastoral, hoje o Rafael não estaria aqui comigo. Ele não estaria vivendo, estaria igual aos outros, que foram", reconhece Maria Senhorini.São sentimentos que a auxiliar de enfermagem Noceli dos Santos também experimenta ao lado da filha. A auxiliar de produção Laíze dos Santos Silva, hoje com 23 anos, nasceu prematura e muito doente. "Eu achava que a minha filha ia ser mais uma naquele monte de mortes", afirma Noceli. A Pastoral mudou a vida da mãe e o destino da menina. Nas palestras, Noceli aprendeu noções de higiene e o poder da multimistura, um pó altamente nutritivo, feito com farelo de grãos, casca de ovo e folhas verdes. Foi a salvação de Laíze. "Tenho lembranças de multimistura, porque até hoje eu como", conta Laíze. E a força desse trabalho solidário vai garantindo a saúde das novas gerações.