JORNAL DA GLOBO (SP) • REPORTAGEM • 13/1/2010 • 23:00:00 • GLOBO

 

 

  

Uma das vítimas do terremoto no Haiti foi a médica Zilda Arns. Ela é fundadora da Pastoral da Criança e levou esse trabalho para quatro mil cidades brasileiras e em 20 países.

Ela teve cinco filhos, mas milhões de crianças devem a vida ao trabalho da Pastoral. Zilda Arns era pediatra, sanitarista e muito religiosa. Católica, morreu em uma igreja. Fazia uma palestra para 150 pessoas, quando foi atingida pelos escombros. A notícia da morte levou muitos amigos e voluntários, até a sede da pastoral onde ela trabalhava, em Curitiba. 

As atividades na Pastoral vinham acontecendo normalmente, mas a maioria dos funcionários estava de férias. Eles foram chegando assim que souberam da tragédia na manhã desta quarta-feira. 

As imagens mostram a sala onde trabalhava Dona Zilda: um escritório modesto, onde esteve pela última vez na sexta-feira, para pegar o passaporte, e a passagem para o Haiti. 

Nas prateleiras, recordações das viagens. São tantas que os assessores nem sabem por quantos países a médica andou. Para o Haiti era a segunda viagem. 

O filho de dona Zilda, que também é médico e um dos coordenadores da Pastoral, lembou que a mãe ainda trabalhava muito, aos 75 anos, e tinha outras oito viagens internacionais marcadas para 2010. 

“Fazia planos de ir a diversos países ainda e implantar a Pastoral da Criança onde fosse necessário”, disse Nélson Arns. 

O trabalho trouxe inúmeras premiações nacionais, 19 prêmios internacionais e uma indicação ao Nobel da Paz. O governo do Paraná decretou luto oficial por três dias. 

Em Forquilhinha, interior de Santa Catarina, onde ela nasceu, moram três irmãs de Zilda Arns. A fé ajuda a amenizar o sofrimento. 

“Você foi a belezinha que tanto amava as crianças”, afirmou a irmã Hilda Arns. 

Era para aos pobres que Zilda Arns mais se dedicava, onde quer que eles estivessem, ela sempre dizia: 

“A Pastoral da Criança ela constrói a paz através do trabalho comunitário, começando pela criança, família. Eu creio que o caminho para o mundo é esse“, declarou em certa ocasião Dona Zilda. 

Na catedral da Sé, em São Paulo, uma missa homenageou as vítimas no Haiti e uma foto de Zilda Arns foi levada para o altar. 

Ela era irmã do cardeal emérito de São Paulo Dom Paulo Evaristo Arns. Foi a com ajuda da Igreja Católica que o trabalho dos voluntários se espalhou pelo Brasil e deixou frutos. 

Na sede da Pastoral, a mais fiel assistente da doutora Zilda na Pastoral diz que o trabalho não vai parar. 

”Eu acredito que todos nós temos muita fé e coragem pra continuar esse trabalho, porque assim ela fez. Estamos aqui para continuar”, declarou a voluntária Maria Ceiça.

Repórter: Ana Zimmerman